Quando a gripe A começou a aparecer em Portugal não veio sozinha. Está acoplado ao vírus H1N1 um elemento que pode ter graves consequências. Talvez não para a saúde. Mas com certeza para aquela forma de intervenção social tão portuguesa e que agora corre o risco de desaparecer.
Antes era um prazer ser o primeiro a dizer "santinho" quando alguém espirrava num transporte público, num banco de jardim, num supermercado, em todos os cantos desse Portugal fora. Era mesmo uma competição silenciosa em que todos participávamos.
Mas agora ninguém se atreve a apelidar de "santinho" aquele ínfame que espirra. Pelo contrário, arregalam-se os olhos e sobrancelhas e põe-se expressão de pânico. Muda-se de lugar, vai-se a correr lavar as mãos.
Nem se pense no "saúde" como alternativa. O que espirra não a tem, de certeza. É o pecador que destrói a pacífica coexistência social em espaços públicos. Não tem perdão. É a gripe. Não há cá alergias, sinusites nem coisa que o valha. Espirrou, foi crucificado. "Santinho" agora é tabu.
Filipa Moreno


