segunda-feira, 30 de março de 2009

Assim sim



Filipa Moreno


sábado, 28 de março de 2009

Lógica da Batata


Ontem, o Relatório da Segurança Interna de 2008.

Hoje, acção policial em todo o país.


Filipa Moreno

segunda-feira, 23 de março de 2009

Talking about dancing

Filipa Moreno

domingo, 22 de março de 2009

Eternamente



"E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas do tecto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplámo-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente.
Heathcleaff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.
Como explicar-te que tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste.
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e as buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos, acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo poderia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares, Não te Deixarei Morrer David Crockett

Filipa Moreno

quinta-feira, 19 de março de 2009

Question



Are you gonna come and get me or what?

Filipa Moreno

Eh pah, já chega

Uma coisa que já cansa bastante é o discurso do "esta juventude já não é o que era". Pois claro que não e ainda bem que assim o é, caso contrário andávamos todos a usar calças de cabedal e a fazer permanentes.
Engraçado que quem costuma atirar para o ar este tipo de frases são pessoas que sofrem de uma aguda falta de memória, esquecendo-se que já foram, eles próprios, jovens. (Ou então velhinhas amorosas, mas essas não o costumam fazer com aquele tom de desdém.)
Outra: fazer a leitura de toda uma geração recorrendo somente a dois ou três exemplares da espécie é, no mínimo, um erro estatístico.
Por isso, o que eu proponho é o seguinte: vamos lá acabar com essa arrogância que só dá ar de recalcamento e inveja porque os jovens de hoje não são melhores nem piores que os de antigamente; são o que são e muito capazes, espero, de dar uma resposta que cale este tipo de provocações.*


*Esta chamada de atenção deve-se a um episódio que ocorreu hoje num autocarro e que teve como protagonista um homem de meia idade que se saiu com esta: "Tenho uma filha de 24 anos e nunca lhe bati, mas há umas que merecem".
Filipa Moreno